BUSCOU-SE,PORTANTO, FALAR A PARTIR DELE E NÃO SOBRE ELE
2002



© lucia helena zaremba


Conta a história que perguntaram a um artista popular brasileiro como, de uma tora de madeira, ele havia conseguido esculpir uma girafa, cheia de detalhes e beleza. Ele respondeu: ora, tirei da madeira tudo aquilo que não era girafa. Alguns atribuem o caso a Picasso.
Pouco importa. As histórias quando se espalham pelo mundo perdem a assinatura de seus autores. Oskar Schlemmer: um encontro marcado.
Aceito o desafio de homenageá-lo, antes de mais nada, resolvemos investigar o que seria uma homenagem.
Ou melhor, de que modo nós, aqui e agora, poderíamos homenagear o artista alemão do século que já é passado.
Não conhecíamos Schlemmer a fundo, apenas a Bauhaus e breves extratos do Ballet Triádico, em preto e branco.
Schlemmer ou a dança da Bauhaus não aparecem na árvore genealógica da dança contemporânea brasileira. Muitos mares e marés separam a Europa de Schlemmer e o Brasil onde estamos. O Brasil de onde falamos, tempo-espaço incontornável de nossa homenagem.
Nada disso importa, as idéias quando se espalham pelo mundo tecem redes que nos atravessam sem pedir autorização.
Ao mergulhar em Schlemmer, nos deparamos com questões que já nos faziam mover, pontos em comum, afinidades.
Grandes janelas se abriram: para dentro. Schlemmer sublinhou traços que estavam em outras criações, insistentes em voltar.
A homenagem, assim, tornou-se um presente também para o homenageador. Em vez de somar optamos por subtrair.
Retiramos tudo aquilo que não era Schlemmer de nossa tora de madeira.
É essa nossa homenagem: presentear Schlemmer com o que é Schlemmer em nós.
“... É bem simples: ter o mínimo de preconceito possível, abordar os objetos como se o mundo acabasse de ter sido criado, não se matar de tanto meditar sobre uma coisa, mas deixar que ela se desenvolva, claro que com prudência, porém livremente. Ser simples, não pobre."
(Oskar Schlemmer)


Criação/Interpretação
Marcela Levi , Micheline Torres, Jamil Cardoso

Dramaturgia/Texto
Silvia Soter

Luz
Milton Gilglio

Produção da Culturgest/Caixa Geral de Depósitos, Lisboa,Portugal, 2002.

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